TERRA NULLIUS: uma reflexão

Por Cláudia Galhós, a propósito da apresentação de Terra Nullius, de Paula Diogo, na PT.21

É preciso escutar com atenção. Se não nos implicarmos profundamente na escuta, de nada serve estarmos aqui. Este alerta, que devia já ser uma banalidade e que nos podia servir simplesmente para viver todos os dias, é particularmente necessário para entrar em “Terra Nullius” de Paula Diogo. Pode parecer uma mera proposta de formato teatral em dispositivo de audiocaminhada, mas é muito mais do que isso. “Terra Nuliius” é um organismo vivo, sensível, informe, que existe por via de um texto dramatúrgico gravado em áudio, que é também um lugar –o lugar que nos convida a caminhar enquanto escutamos e, nessa escuta, amplificar todos os sentidos para apreender melhor e nos conectarmos mais intensamente com tudo e todos o/os que nos rodeiam. Na versão em que estreou, na programação do Teatro D. Maria II (Lisboa), as pessoas encontravam-se todas num primeiro momento para iniciar a caminhada juntas, numa espécie de silent disco transformado em silent live art ou silent performance. A história que Paulo Diogo nos conta é sobre a consciência de que participamos de um corpo comum, e das muitas feridas e violências infligidas a essa comunhão, onde o outro é muitas vezes agredido, discriminado ou simplesmente ignorado. Nestes tempos pandémicos, na impossibilidade da partilha num mesmo percurso feito em conjunto, cada um mergulhado na sua escuta, “Terra Nullius” permite uma vivência excepcional que devemos valorizar: podemos estar física e geograficamente distantes, mas continuamos a fazer parte do mesmo corpo comum. Podemos até, quem sabe, encontrarmo-nos todos à mesma hora, num lugar com coordenadas distintas, mas num mesmo lugar-extra: esse lugar que, na sua imaterialidade e na imaginação de cada um, se edifica na escuta atenta e sensível de Terra Nullius. Paula Diogo dá apenas uma simples instrução: caminhem em direcção a uma linha de água ou a um ponto alto.

Cláudia Galhós, jornalista e crítica de Dança


TERRA NULLIUS: a reflection

by Cláudia Galhós, for the presentation of Terra Nullius, by Paula Diogo, at PT.21

It is necessary to listen carefully. If we do not become deeply involved in listening, it is useless to be here. This warning, which should already be a banality and that could serve us simply to live every day, is particularly necessary to enter Paula Diogo’s “Terra Nullius”. It may seem like a mere proposal of a theatrical format in an audio-guided device, but it is much more than that. “Terra Nuliius” is a living, sensitive, formless organism, which exists through a dramaturgical text recorded in audio, which is also a place – the place that invites us to walk while listening and, in that listening, to amplify all the senses to learn better and connect more intensely with everything and everyone around us. In the version in which it debuted, in the programming of Teatro D. Maria II (Lisbon), people were all at first to start the walk together, in a kind of silent disco transformed into silent live art or silent performance. The story that Paula Diogo tells us is about the awareness that we participate in a common body, and the many wounds and violence inflicted on this communion, where the other is often assaulted, discriminated against or simply ignored. In these pandemic times, in the impossibility of sharing the same journey made together, each immersed in their listening, “Terra Nullius” allows an exceptional experience that we must value: we can be physically and geographically distant, but we continue to be part of the same common body . Who knows, we may even meet at the same time, in a place with different coordinates, but in the same extra place: this place that, in its immateriality and in each one’s imagination, is built on the attentive and sensitive listening of Terra Nullius. Paula Diogo gives just a simple instruction: walk towards a water line or a high point.

Cláudia Galhós, journalist and dance criticist.