TERRA NULLIUS
de/by Paula Diogo
Festival Atos de Fala > Rio de Janeiro BR
14, 21 Novembro / November 2025
“Começamos aqui na Praça Tiradentes. Um local novo e velho ao mesmo tempo. Uma clareira no meio da cidade de onde podemos olhar o céu. No meio da Praça existe uma estátua. Um monumento. Os monumentos são uma tentativa de fixar acontecimentos irrepetíveis. Essa estátua marca um momento de ruptura, mas mostra também o encontro dos quatro maiores rios brasileiros. E parece-me o local perfeito para começar a nossa história. Uma história que se torna presente pela influência da água. Em 2006, na Islândia, um glaciar chamado Ok desapareceu. Um grupo de ativistas decidiu criar um monumento em sua memória. Na placa comemorativa escreveram: ‘sabemos o que está a acontecer e o que precisa de ser feito’. O que precisa de ser feito. Imaginem que esse glaciar transformado em vapor e água percorreu milhares de quilómetros e migrou para lugares distantes chegando, quem sabe, até aqui. Imaginem que essa massa líquida transborda as margens da Baía de Guanabara e se funde com os seus corpos, fazendo-os deslizar pelas ruas como um fluxo de água que se expande e multiplica a cada novo encontro.”
O retorno da audiowalk TERRA NULLIUS ao Rio de Janeiro marca mais de uma década de derivas de Paula Diogo pelo território brasileiro e pela América Latina com projetos como Se uma janela se abrisse e Mundo Maravilha (com o Mundo Perfeito de Tiago Rodrigues), L-O-V-E, O Grande Livro dos Pequenos Detalhes, As Cidades Invisíveis e Aquilo que há-de vir (com a Má-Criação). Paula já refez muitas vezes os seus passos pelas ruas de Copacabana e da Maré, pelas ladeiras de Santa Teresa e pelos armazéns da região portuária. Mas este retorno acontece também menos de um mês após o massacre policial mais letal da história do Brasil – uma ruptura que provavelmente não será fixada em monumento a lembrar-nos que ainda há muitos territórios em disputa ao redor do globo, entre fluxos de água que unem mas também separam.
“We begin here in Tiradentes Square. A place that is both new and old at the same time. A clearing in the middle of the city from where we can look at the sky. In the middle of the square there is a statue. A monument. Monuments are an attempt to fix unrepeatable events. This statue marks a moment of rupture, but it also shows the encounter of the four largest Brazilian rivers. And it seems to me the perfect place to begin our story. A story that becomes present through the influence of water. In 2006, in Iceland, a glacier called Ok melted away. A group of activists decided to create a monument in its memory. On the commemorative plaque they wrote: ‘we know what is happening and what needs to be done’. What needs to be done. Imagine that this glacier, transformed into vapor and water, traveled thousands of kilometers and migrated to distant places, perhaps even reaching here. Imagine that this liquid mass overflows the shores of Guanabara Bay and merges with your bodies, making them slide through the streets like a stream of water that expands and multiplies with each new encounter.”
The return of the TERRA NULLIUS audiowalk to Rio de Janeiro marks more than a decade of Paula Diogo’s wanderings through Brazilian territory and Latin America with projects such as Se uma janela se abrisse and Mundo Maravilha (with Tiago Rodrigues’s Mundo Perfeito), L-O-V-E, O Grande Livro dos Pequenos Detalhes, As Cidades Invisíveis, and Aquilo que há-de vir (with Má-Criação). Paula has retraced her steps many times through the streets of Copacabana and Maré, the slopes of Santa Teresa, and the warehouses of the port area. But this return also happens less than a month after the deadliest police massacre in Brazilian history – a rupture that will probably not be fixed with a monument to remind us that there are still many territories in dispute around the globe, between flows of water that unite but also separate.









fotos @André Mantelli