AURORA (ou LIVRO) | Teatro Viriato

AURORA (ou LIVRO) > AURORA (or BOOK)

de/by Paula Diogo

estreia > Teatro Viriato > Viseu PT > 20 Março 2026

Este espetáculo parte do ato da leitura para se ler um espaço em conjunto. Que tipo de leitura é que é proposta e o que significa “ler” um espaço?

PAULA DIOGO – Acho que quando pensei nesta ideia de “ler” um espaço, estava a pensar em como a palavra se torna corpo, ou melhor, em como a palavra toma corpo no espaço e o ocupa. Também estava a pensar no tacto que acompanha a vivência de mundo das pessoas cegas ou de baixa visão, que me interessava explorar na relação com os corpos e com o espaço.

No espetáculo, atores e espectadores alternam entre guiar e ser guiados, até que esta distinção se torna difusa. Porque foi importante trabalhar essa perda de hierarquia entre quem observa e quem age?

PAULA DIOGO – Nos trabalhos que tenho feito, tenho procurado sempre colocar o espectador num lugar de alguma liberdade e surpresa, numa relação em que a sua subjetividade tem lugar e é parte da construção do espetáculo. Depois há uma ideia de proximidade ou familiaridade com os corpos e vozes dos atores que me agrada, em que muitas vezes a teatralidade é meio diluída e o público tem de escolher o que ouve ou vê. Como se às vezes quiséssemos mesmo dizer: queremos que oiças isto – e outras nos interessasse mais perguntar: o que é que tu ouves disto? No início pensámos também numa ideia de locomoção coletiva que atravessava o espetáculo e que acabou pouco a pouco por deixar de ser tão importante, apesar de continuar a estar presente.

O título do espetáculo remete-nos para um estado de transição entre luz e escuridão. De que forma esta imagem da aurora influencia o espetáculo?

PAULA DIOGO – O espetáculo estrutura-se como uma série de recomeços, entre tentativas de escrever, ler, falar, encontrar as palavras certas para comunicar, para construir paisagens, para partilhar memórias. Às vezes o que aparece não é necessariamente aquilo que seria para se mostrar, ou aquilo que chamaria a nossa atenção. Uma das propostas que fazemos ao longo do espectáculo é que os espectadores abram e fechem os olhos, como um mecanismo de jogo. O que gostaríamos que acontecesse é que a certa altura ter os olhos abertos ou fechados, deixasse de ser importante.

A privação da visão aparece como um dispositivo fundamental para ativar outras formas de perceção. Que novas “leituras” do mundo emergem quando o olhar deixa de ser dominante?

PAULA DIOGO – Sabemos que quando somos privados da visão, somos obrigados a ativar os nossos outros sentidos. Isso coloca-nos num tempo e numa escuta, muito diferentes do tempo do nosso dia-a-dia. O mesmo acontece quando vemos uma imagem desfocada e temos de apurar o olhar para perceber os seus contornos. Esse acto implica esforço, mas implica principalmente um tipo de atenção e de foco que me interessa. Pessoalmente, provavelmente pela velocidade dos dias e pela constante mediação de ecrans, eu tenho cada vez mais dificuldade em colocar-me nesse lugar e principalmente tenho dificuldade em deixar-me tocar por uma visão de mundo que seja diferente da minha. O diálogo com uma realidade diversa, que percebe o mundo de outra forma nem sempre é fácil e muitas vezes fragiliza a minha posição. Interessa-me a agitação que esses encontros provocam. O encontro com a Joana Gomes, que nos acompanhou nos ensaios, foi fundamental neste processo.

Lemos melhor o mundo de olhos fechados ou de olhos bem abertos?

PAULA DIOGO – Lemos o mundo de maneiras diferentes, seguramente. Num mundo construído para olhos abertos, quem tem olhos abertos estará sempre em vantagem porque tem um mundo construído à sua medida. Mas a verdade é que continuamos a fechar os olhos para ouvir melhor uma música, ou para nos lembrarmos de alguma coisa escondida lá atrás..

Este trabalho reúne colaboradores de áreas distintas como a dança, o teatro e as artes visuais. De que modo esta diversidade disciplinar contribuiu para a construção da linguagem cénica do espetáculo?

PAULA DIOGO – Sempre que começo um processo para um novo espetáculo gosto de deixar em aberto a forma final que ele pode assumir. Esse formato é obviamente o resultado do encontro do grupo de pessoas que resolvo juntar a cada vez. Eu sabia à partida que o som seria uma parte importante do espetáculo porque o João (um dos intérpretes) é músico e essa é a sua forma de expressão principal. Somos três intérpretes em palco (eu, o Renato Linhares e o João Lopes Pereira), mas na realidade, fora de palco também estão três músicos (João LP, Mariana Ricardo e Yaw Tembe), o que influenciou o lugar para onde o trabalho foi evoluindo. Todo o processo é permeável aos criativos que se vão juntando em diferentes fases, o espaço, a luz, o som, o vídeo, a fotografia. Este processo mais ou menos caótico, acaba por convergir num objeto final a que, neste caso, chamamos teatro, mas que poderia ter outro nome. Este trabalho teve ainda a sorte de ser desenvolvido em fases de trabalho espaçadas e residências com grupos de pessoas cegas e/ou de baixa visão (uma delas com a Dançando com a Diferença em Viseu) que nos acolheram na fase de pesquisa e foi objecto de um longo processo de documentação. No trabalho com esses grupos foram surgindo as paisagens que compõem o espectáculo: uma praia, uma montanha, uma mão…

Este projeto marca mais um momento de investigação contínua na relação entre corpo e espaço no percurso artístico da Paula. Em que sentido “AURORA (ou LIVRO)” dialoga ou se distingue de outros trabalhos seus?

PAULA DIOGO – Uma das características que consigo identificar no meu trabalho é uma relação entre a palavra, o corpo e o espaço que se materializa de maneiras muito diferentes em trabalhos anteriores como “Terra Nullius” ou “Espelhos & Monstros”. Mas há também uma vontade de “des-hierarquizar” aquilo que é o olhar do espectador no teatro. Há esta ideia de que controlamos o olhar do público, para onde e como ele deve olhar a cada momento. Isso acontece de facto, mas eu gosto de pensar no olhar do público como um olhar que deambula e faz desvios inesperados e acho que isso permite que o teatro seja um lugar de vida e de jogo, em que não somos sempre nós performers a controlar.

Entrevista para a folha de sala do Teatro Viriato.

+INFO



fotos @João Tuna