DOIS MIL E VINTE E CINCO | uma rápida retrospectiva

Na novela de ficção científica Circular Motion, de Alex Foster, uma nova tecnologia de transportes faz com que a Terra comece a girar cada vez mais depressa, comprimindo o dia e a noite numa duração de apenas seis horas e transformando a superfície do planeta numa massa ondulante, à qual as pessoas se agarram como formigas a um tronco que roda na correnteza. A escrita de Foster articula com eficácia as transformações na rotina dos indivíduos com catástrofes de larga escala, mas o livro funciona sobretudo porque ecoa na nossa própria experiência: a sensação de que vivemos num mundo em constante aceleração.

Este ano passou numa corrida desabalada através de incêndios, golpes, escândalos, perdas e até vitórias — tanto mais preciosas e marcantes por parecerem tão raras. Da nossa parte, acabamos sempre por nos surpreender com a quantidade de pequenas conquistas que continuam a acontecer apesar da precariedade. Foram criações, digressões, encontros, publicações, residências e workshops nos quais continuámos a descobrir pessoas e a entusiasmar-nos mutuamente: oásis de desaceleração e de conexão em meio a uma força centrífuga crescente.

Ao olhar para trás, reconhecemos a nossa insistência em processos criativos que permitam alguma dilatação do tempo e do espaço, capazes de repercutir mais longamente, tanto interna como externamente. É o caso de Rádio Existência, que levou Alex Cassal, Bruno Huca, Gaya de Medeiros e Márcia Lança a explorar o território físico e imaginário de Torres Vedras, resultando numa série de peças áudio em 2024 e em quatro solos independentes (e interligados) em 2025. Ou da odisseia cósmica Hotel Paradoxo,  de Alex Cassal com Marco Mendonça, que concluiu mais de dois anos de criação em residências e ensaios em Lisboa, no Porto, na Moita e em Canas de Senhorim, estreando no Planetário do Porto – Centro Ciência Viva. Após residências em Viseu, Torres Vedras, Moita e Lisboa, Aurora (ou Livro) de Paula Diogo aproxima-se também do seu ponto de não retorno e entrará na sua reta final assim que rebentarem os últimos fogos de Ano Novo.

Em 2025, andámos também em viagem: SHAMPOO [autobiografia do chão] de Renato Linhares, esteve no Festival d’Aurillac em França (juntamente com Bola de Fogo, do amigo Fábio Osório Monteiro), e Terra Nullius de Paula Diogo participou no Festival Atos de Fala no Brasil. A plataforma itinerante de mulheres artistas Celestial Bodies realizou um novo encontro em Lisboa, por ocasião do lançamento da sua terceira publicação. Por fim, Alex e Paula celebraram mais de uma década de parceria com um workshop integrado na programação do Afinidades Criativas, da estrutura Causas Comuns.

E já se aproxima 2026, com novas parcerias, desafios, criações e estreias. Mas, antes disso, faremos aquilo de que precisamos há muito tempo: parar. Ainda que por breves instantes.

Feliz ano novo. Logo estaremos de volta.

Paula Diogo e Alex Cassal


In Alex Foster’s science fiction novel Circular Motion, a new transportation technology causes the Earth to spin faster and faster, compressing day and night into just six hours and transforming the planet’s surface into a rippling mass, to which people cling like ants to a drifting log. Foster’s writing effectively articulates the changes in individuals’ routines with large-scale catastrophes, but the book works above all because it resonates with our own experience: the feeling that we live in a constantly accelerating world.

This year has passed in a frantic race through fires, coups, scandals, losses, and even victories—all the more precious and significant for seeming so rare. For our part, we always end up being surprised by the number of small achievements that continue to happen despite the precariousness. These were creations, digressions, encounters, publications, residencies, and workshops in which we continued to discover people and inspire each other: an oasis of slowing down and connecting amidst a growing centrifugal force.

Looking back, we recognize our insistence on creative processes that allow for some expansion of time and space, causing a longer-lasting impact, both internally and externally. This is the case with Rádio Existência, which led Alex Cassal, Bruno Huca, Gaya de Medeiros, and Márcia Lança to explore the physical and imaginary territory of Torres Vedras, resulting in a series of audio pieces in 2024 and four independent (and interconnected) solo performances in 2025. Or the cosmic odyssey Hotel Paradoxo, by Alex Cassal with Marco Mendonça, which concluded more than two years of creation in residencies and rehearsals in Lisbon, Oporto, Moita, and Canas de Senhorim, premiering at the Oporto Planetarium – Centro Ciência Viva. After residencies in Viseu, Torres Vedras, Moita and Lisbon, Paula Diogo’s Aurora (or Livro) is also approaching its point of no return and will enter its final stretch as soon as the last New Year’s fireworks explode.

In 2025, we also traveled: SHAMPOO [autobiografia do chão] by Renato Linhares was at the Aurillac Festival in France (along with Bola de Fogo, by our friend Fábio Osório Monteiro), and Terra Nullius by Paula Diogo participated in the Atos de Fala Festival in Brazil. The itinerant platform for women artists Celestial Bodies held a new meeting in Lisbon, on the occasion of the launch of its third publication. Finally, Alex and Paula celebrated more than a decade of partnership with a workshop integrated into the Afinidades Criativas program, from the Causas Comuns structure.

And 2026 is approaching, with new collaborations, challenges, creations and premieres. But, before that, we will do what we have needed to do for a long time: stop. Even if only for brief moments.

Happy New Year. We’ll be back soon.

Paula Diogo and Alex Cassal

fotos @André Mantelli, Guilherme Gomes, Masako Hattori, Renato Cruz Santos, Vincent Muteau, Má-Criação